Leia ao som de Esquadros - Adriana Calcanhoto
Da janela do quarto eu tenho sempre a mesma vista. As cores do céu mudam conforme o dia, o contorno das curvas dos edifícios que surgem no horizonte também se transformam com o tempo.
É curiosa a maneira como acho difícil mudar o olhar quando se vê todos os dias a mesma coisa.
Eu me vejo todos os dias no espelho. Poucas vezes olhei para mim.
Segundo o dicionário "ver" é perceber pela visão; enxergar. Já o verbo "Olhar" é dirigir os olhos para; mirar(-se), fitar(-se).
Há um mundo de diferenças entre ver e olhar. Há um mundo de diferenças entre um dia e outro.
Estamos em uma época de pandemia. A última dessa foi no século passado.
A quarentena nos faz olhar para nós, para os outros, para tudo, de uma forma diferente. O isolamento, a mudança na rotina, traz novas perspectivas sobre algo que sempre esteve ali.
Ontem eu perdi um tio. Não foi mais uma vítima da COVID-19. Ainda não sei ao certo o motivo da morte mas, desde ontem, estou pensando e repensando inúmeras coisas: a nossa relação com a tecnologia, a maneira como recebemos notícias e informações, a influência do meio na mensagem, a maneira como lidamos com a morte, a forma como nos relacionamos, entre tantas outras coisas.
Sobre a morte em si não me resta nada a fazer. Aceitar. Sentir saudades de quem se foi. E quem fica, como fica?
Não consigo ver a morte como um lugar. Porque a gente a fica aqui, certo? O que difere aqui de lá?
Penso no meu pai que já enterrou meus avós e alguns tios. Penso nas minha lembranças com meu tio.
As coisas estão aí, a vida está aí, assim como a vista da minha janela está ali: imóvel e diferente a cada dia.
É uma piração danada, é um pingo se insanidade. É muito para processar. São as mesmas coisas todos os dias. Só que ao mesmo tempo é tudo tão diferente.
Ser a mesma Priscila sem ser a mesma Priscila. O quanto deixo de ser eu para me transformar em algo diferente?
O que é "ser eu"? O que é "ser bom"? Bom para quem?
Eu sempre vi tudo. Ou quase tudo. Ou quase nada.
Mas para o que eu venho olhando durante a vida? Para que parte da vida eu olho com atenção e contemplo? E somente "ver"pode transformar? Ou é preciso olhar para transformar?
Acho que fico com a segunda opção. Talvez pelo processo de perceber coisas que eu já sei. Pode ser também o processo de dizer. Mas quando digo eu escolho a palavra. Eu escolho o viés. Escolho o enquadramento. Escolho, escolho, escolho.
Quantas escolhas. Quanto controle.
Eu olho as pessoas. Fito. Miro.
Eu me vejo, não me enquadro. Não me olho.
Relendo tudo isso percebo meus pensamentos. Soltos e incansáveis. Minha cabeça está repleta de teorias e pouca prática. Às vezes explicar é mais fácil do que fazer.

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