Caleidoscópio de Memórias - Blog da Priscila Souza | psouva
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Eu me peguei lendo os escritos da vizinha.

Não que eu já não tivesse lido antes. Não que eu não ache curioso como, em um determinado tempo da vida, tivemos as mesmas pessoas no círculo de amigos, mas nunca nos esbarramos.

É óbvio que tem a diferença de idade. Sempre estive em outros tempos, em outras cronologias.

Mas eu li. E me identifiquei. E me perguntei quantas pessoas mais poderiam se identificar.

Eu li. Assim como estou lendo Fernando Pessoa e seu Livro do Desassossego.

Reduzi meus acessos ao Instagram e a outras redes sociais. LinkedIn me é necessário por conta do trabalho. No mais, tenho entrado pouco. Estava rolando a tela por minutos intermináveis e assistindo demais à vida dos outros.

Inclusive, foi numa dessas breves visitas que o link para os escritos, um espaço no Substack, apareceu.

Acho que por hoje é só. Talvez outro dia eu fale sobre o Pessoa.


ps: a foto é de uma viagem ao Museu do Café em Santos.

Existe uma certa graça nas manhãs de fevereiro.

É verão, o clima é quente, mas as manhãs, com uma brisa, fazem a pele sentir um frescor. A temperatura ainda amena, boa parte das pessoas ainda está no caminho. No caminho do trabalho, da escola.

Por esses dias, fui caminhar numa dessas manhãs de fevereiro. Era volta às aulas. Com quase 41 anos, tentei relembrar da época em que eu era a aluna a caminho da escola. Sempre gostei de estudar de manhã.

Os adolescentes em grupos. As crianças com seus pais ou cuidadores. Famílias levando crianças e bebês em seus primeiros dias de um novo ano. Do primeiro ano. De uma nova rotina.

Muitas primeiras vezes. Trânsito. Carros em fila dupla. Tudo isso em poucos minutos de uma manhã de fevereiro. Muitas pessoas caminhando e correndo.

Manhãs de fevereiro são vivas. Mostram um cotidiano que eu gosto de reparar.

Até o cheiro desse tipo de manhã é diferente.

Eu gosto de sentir o sol aquecendo a pele de leve. Do contraste entre estar no sol ou estar na sombra.

Eu lembro de pouca coisa.

Vi uma adolescente saindo de casa e trancando o portão e tentei lembrar como era o meu caminho. Tentei lembrar o que estaria pensando nessa mesma época. Faz tanto tempo. Eu não lembrei.

Toda essa cena poderia ser parte de um filme. Mas aí um ciclista quase atropelou um pedestre que estava caminhando na ciclovia, e eu lembrei que era a vida real.


Acabei de assistir Sonhos de Trem. Adaptação do livro de mesmo nome. Fui tomada por algumas emoções.

Uma única palavra vem à mente: zeitgeist. O espírito do tempo.

É curioso perceber como as coisas vão se conectando. Hoje mais cedo, ao ouvir algumas coisas que eu costumava ouvir lá pelos idos de 2008, 2009, pensei justamente nessa coisa de viajar no tempo. Ou de memórias. Lembranças. E esse sentimento de ver o tempo passar.

Sonhos de Trem é uma poesia na tela. É contemplar a passagem do tempo. Assistir à dor e ao amor. É de uma fotografia realmente ímpar.

Em que momentos é que a gente se sente vivo? E será que é possível ter a noção do que vai ficar na memória pra sempre?

É como lembrar do primeiro beijo. Ou de uma grande paixão que passou.

A música tem um poder muito forte de me trazer lembranças e me transportar no tempo.

Parar para escutar música é algo que todos deveriam fazer. É algo que eu deveria fazer com mais constância. Absorver a melodia, a letra...

Sei lá. É como ouvir Olivia Dean. É a primeira vez, mas parece que já estive aqui antes. É como banho de chuva em dia quente de verão. É como um sabor que nunca mais vou experimentar, mas que segue vivo na boca.

Construí um zeitgeist particular. Se é que isso é possível. Na cabeça, relembro a cena do avião, enquanto toco mentalmente o refrão de The Man I Need.

Hoje é um marco no tempo. Espero que esse sentimento, que me é atrelado ao escrever, permaneça e que, daqui a uns anos, ao ouvir, por acaso, numa playlist aleatória, Olivia Dean novamente, me venham lágrimas de felicidade, similares às que derramei hoje pela felicidade de contemplar uma obra de arte.

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