Versão pirata



No meu primeiro post aqui eu perguntei se a perfeição é possível. Algum tempo se passou e eu continuo me perguntando a mesma coisa.

Eu só quero ser uma pessoa pontual, com uma casa limpa e arrumada, que cumpro com minhas obrigações, que estudo... Quero ser uma boa namorada, uma boa profissional. Será que tudo isso é tão inatingível assim? Será que não dá para ser tudo isso ao mesmo tempo?

Tenho esbarrado em versões de mim mesma que vivo criando por aí. O que eu sou? Quem eu sou? Eu sei que tenho inúmeros anseios e pego para mim comportamentos alheios que julgo bons. Se alguém usa uma palavra que gosto eu a uso também. Se alguém pensa de uma certa forma em questões políticas e essa forma me apraz, então eu reproduzo essa forma de pensar também. 

Me sinto um grande artigo científico em construção, pois sinto que é necessário citar outros autores para ter credibilidade. Eu não sou expert em mim mesma. Vejo coisas por aí, livros, música, textos, imagens, e tento me identificar com essas referências. Só que pra ser quem sou, eu preciso me conhecer, me aceitar, me amar mais. 

Ou seria somente “me amar”? O amor precisa ser “muito”?

Eu ando frustrada. Sinto falta de desafios no trabalho. Sinto falta de ser doce, carinhosa. Essa frustração em não-ser me consome, me irrita. E minha irritação me deixa agressiva. Tal qual criança birrenta que no fundo quer atenção.

Tenho percebido que eu sempre tento corresponder às expectativas alheias. Que eu sempre espero que me digam o que esperam de mim, que me digam exatamente o que eu preciso fazer. Tudo isso para ganhar aprovação. Escrevendo assim parece algo simples de mudar, mas é muito mais profundo. 

Eu quero escrever histórias, que não as minhas. E quero escrever as minhas histórias também.  Eu quero viver sem dramas, sem ficar mal por me expor após uma bebedeira. Quero parar de ferir a pessoa que eu amo. Parar de normalizar grosseria. 

Eu sempre quis deixar um legado no mundo. Eu sempre quis deixar a minha marca na história, fazer algo tão bom, que as pessoas lembrassem de mim tempos depois por ter feito algo. O que falta é ser eu. 

Hoje, numa conversa durante o café da manhã, percebi que eu sou uma versão “pirata” de mim mesma. 

Às vezes sinto que estou andando em círculo. Tenho a impressão de que, de alguma forma, eu já estive aqui. Sinto-me como o cachorro que corre atrás do próprio rabo. 

Você já se sentiu assim? 

Escrevo. Preencho a tela com palavras que deveriam me ajudar a encontrar um sentido para as coisas. Um sentido para os sentimentos.

É sábado a noite e eu estou sozinha em casa. Se Lulu Santos diz que “todo mundo espera alguma coisa de um sábado a noite” eu só espero me encontrar no meio desse turbilhão de emoções que ando chamando de vida. 

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