A paixão segundo Rodrigo Terra Cambará...

... ou um misto da ficção disso com aquilo. 


Os fluxos de consciência de Clarice (Lispector) são uma constante por aqui. Não que eu seja lá grande escritora ou tenha noção de como fazer isso de forma proposital. A ideia central é que os pensamentos vão surgindo e vão sendo registrados.

Por esses dias venho relembrando alguns trechos de “A paixão segundo G.H.”. Toda interrupção se torna num depois. 

Misturo o ser e o deixar de ser, a certeza ou as certezas, as incertezas também – aliás, as incertezas são mais certas. Misturo todos esses trechos com os devaneios de Rodrigo Terra Cambará, o doutor do romance de Érico Veríssimo. Rodrigo tem suas paixões e persegue uma imagem irretocável, mas é falho como todo e qualquer outro ser humano. E Rodrigo sente. Sente tanto e se repreende por sentir coisas que talvez não devesse sentir. Mas o que nos é permitido sentir?

Tudo? Uma parte? Só os sentimentos “bons”?

Eu sinto cansaço. Um cansaço exaustivo. É como se eu estivesse cansada de fugir de mim mesma.

Quanto mais corro, mais canso. E quanto mais canso, mais percebo que é inútil fugir.

Sinto como se meus sentimentos fossem a minha própria sombra. Não conseguimos nos desconectar, a sombra e eu.

Me repreendo por sentir raiva, mas não deixo de sentir. E confesso que não olho a raiz dessa raiva. 

Por que tanta raiva, Priscila? O que foi que feriu? Será que estou mesmo tão ferida que a única resposta possível é ferir de volta?

Olhar para dentro, sem viés. Olhar para dentro, eu repito. Eu olho e encontro um mundo de palavras. Um infinito de tentativas de racionalizar. 

Escrever é trazer para o racional, não é?

E esse fluxo mental? Onde eu quero chegar?

Talvez eu queira me explicar. Explicar que eu construí uma imagem irreal de perfeição que nem eu mesma tenho coragem (ou seria responsabilidade) para atingir.

É certo que numa sociedade de cobranças positivistas — alô, Byung-Chul Han — onde a gente acredita que sempre pode produzir mais, ser mais, ser melhor, é estafante ficar no meio do caminho. Eu faço recortes dos melhores momentos, das melhores características, arquivo isso em algum lugar na minha mente sempre tão ata. Percebo os detalhes, mas tudo o que vem a boca é a distância entre o ideal e o real. Se tem algo lindo, contemplo, mas não verbalizo o quão lindo é. O que sai é o que falta para a perfeição. A perfeição que inventei ou a que julgo existir.

Estou nos dois extremos da vida ao mesmo tempo: o da criança que tem suas necessidades satisfeitas pelos outros, e o do idoso que sequer tenta mudar dizendo que é assim mesmo, que tal qual Zagallo mete um “Vocês vão ter que me engolir”.

Estou cansada. Troco a trilha sonora: de Manu Chao pra Racionais Mc’s. Nego drama. 

Já não tenho mais palavras pra expelir. Ao menos não mais por hoje.

 

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