É engraçado, pra não dizer ‘curioso’, reler meus textos e perceber como eu sempre estive perdida. Perdida na vida, perdida entre sentimentos, perdida entre decisões, perdida entre tantos pedaços de mim. Entre tantas peças num quebra-cabeça que, no final das contas, só existe na minha cabeça.
Eu sempre fugi. Da responsabilidade. Dos relacionamentos. Dos amores. De ser amada e até mesmo de amar. Sempre fugi do completo, porque o incompleto me permitia sonhar, criar, iludir. O incompleto me permite não ser real e não sendo real eu consigo atingir uma perfeição. Perfeição que nem eu mesma quero. Perfeição inatingível. Inalcançável.
Alimento minha insatisfação. É como a terceira perna, que não me serve para nada, mas que de alguma forma faz com que eu me sinta mais segura. Minha insatisfação me protege. Do quê? Nunca saberemos. Eu crio monstros junto com as insatisfações.
Esses monstros, às vezes, têm nome e sobrenome. Às vezes são só sentimentos. “Só” sentimentos. Como se sentir fosse “apenas” uma expressão da vida, como se sentir fosse menos, como se toda a sorte de sentimentos estivesse numa categoria menosprezada de forma acidental. A lógica sempre foi valorizada. O pensamento, o racional. “Você não pode sentir isso”, “você não deveria sentir-se assim”, “você é muito sensível”, “você é muito fria”.
Eu não me lembro de aprender a sentir. Se é que isso aprende-se de alguma forma que não seja “apenas” sentindo.
Lembro-me dos livros. Lembro-me de “Pássaros Feridos”. Lembro tanta coisa que, como cacos espalhados por aí, eu fui juntando pra tentar me construir.
Sempre há drama. Sempre houve. Transbordo drama. Cada letra, cada palavra, cada vírgula e cada entrelinha. Drama! Que entrem os atores, que abram as cortinas. Eu, plateia de mim mesma, me assisto.
E por tanto drama, por tantos cacos, me sinto patética. Olho em volta e estou sozinha no palco. O holofote em mim faz com que eu não consiga ver mais nada, nem ninguém.
Releio tudo até aqui. Mentira, eu não reli. Me sinto patética. Qual o próximo capítulo? O que mais vou romantizar? Por qual outro viés vou querer me enxergar?
Não era mais fácil olhar ao espelho e no reflexo perceber-me? Preciso de um espelho que me mostre a minha própria alma, que seja inteiro e não o recorte de tantas peças que recolhi ao longo do tempo.
Um quebra-cabeça encaixa suas peças melhor do que um mosaico. Seria eu, um caleidoscópio?
O lance é que, para montar tudo isso — eu ia dizer “para montar tudo isso sem falhas”, mas as falhas existem e são parte — é preciso desmontar tudo, e perceber cada peça. Sentir cada peça. Sentir cada pedaço meu que evitei sentir. Como um cego, que faz do tato seu principal sentido. Tocar cada parte daquilo que sou, tocar cada qualidade e cada defeito e, assim, sentir como é ser quem sou.
Como será montar um quebra-cabeça em braile? Como será dar mais uma volta nesse caleidoscópio que eu insisto em chamar de vida e querer que forme algo perfeito?


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