O início do fim

porta fechada com cadeado



Eu precisava começar de alguma forma.
Eu continuo precisando começar de alguma forma. Essa necessidade de (re)começar a escrever tem me consumido há alguns dias.

Todos dias tenho ideias que não coloco no papel. Todos os dias penso em agradecer, criticar, registrar algo.
Todos os dias penso em sair para fotografar. Eternizar a vida, o meu olhar. Esse instante. Esse agora.

E todos os dias eu evito um encontro mais profundo com questões que trago desde sei lá quando.

Recentemente voltei para a terapia e me percebi num jogo de "batata-quente", com insatisfações recorrentes: que vão do cenário político atual — que me traz pequenas angústias — até a minha necessidade de autoafirmação.

Olhar para dentro é muito mais complicado do que olhar para fora.
Durante anos treinei meu olhar para perceber, no outro, cada sutil mudança de humor. A maneira como o outro respira, a maneira como o outro olha e para onde olha. Como o outro fala, como cala. Um olhar atento, que faz perguntas para confirmar inúmeras inferências. Eu não tenho bola de cristal, mas dentro da minha cabeça tento antecipar o futuro. Percebo que não escuto com atenção, mas escuto já pensando na resposta que vou dar. Cada movimento é friamente calculado. 

E nos momentos onde a emoção fala mais alto, é onde não sei lidar. 
Olhar para dentro e me permitir sentir. 
Sentir e me permitir ser decepcionada. Não fugir das decepções diárias como se desse para fugir disso.

A perfeição é atingível? É palpável?

Eu me percebo uma boa profissional. As expectativas em um contrato de trabalho são bem explícitas. Concordo ou discordo, mas eu sei o que precisa ser feito. E sei o que não pode ser feito.
Quando o assunto é sentir eu não sei o que esperado que eu sinta. Bizarro, não? Eu não sei lidar com a única pessoa que me acompanha desde que nasci: eu mesma. 

Como uma "boa empresa" o que foge do meu core business  eu simplesmente terceirizo.
O que você vai ler aqui, ou o que eu vou escrever (porque existe a possibilidade de que ninguém leia) é essa minha trajetória de aprendizado. 
Reflexões boas ou ruins. Óbvias ou não. 

Falando em óbvio, minha citação favorita da Clarice Lispector trata justamente sobre o isso: "O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar." e ela diz isso em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.
Eu sou o óbvio que caminha por aí.

5 comentários

  1. Parabéns!
    Viagem ao autoconhecimento e sempre incrível. As vezes e necessário voltar um pouco, mas não desista!! Sucesso!!!! Bjos Paula

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  2. Òtimo texto! Me vi em muitas palavras.

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    1. Oi Fátima, muito bom saber que não estou sozinha nessa. Um bom final de semana pra você

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  3. Qual é o seu email, Priscila?

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